PAPA FRANCISCO: UM LEGADO
“O Papa é argentino e Deus é brasileiro!” (Papa Francisco, JMJ 2013)
Conclave é o momento no qual a Igreja Católica elege um novo Papa. A palavra deriva do latim “cum clavis” (com chave) e do fato de que, antigamente, os cardeais eram literalmente trancados à chave na Capela Sistina ou em algum outro lugar, sem comunicação alguma com o povo, até que o novo Papa fosse eleito. Atualmente, todos os cardeais com menos de 80 anos são abrigados a participar do Conclave e estão aptos a votarem e a serem votados. A sucessão papal iniciou com Pedro, o primeiro Papa:
Mateus 16, 13-19: Chegando Jesus ao território de Cesareia de Filipe, perguntou aos discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” Disseram: “Uns afirmam que é João Batista, outros que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou um dos profetas”. Então lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro, respondendo, disse: “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo”. Jesus respondeu-lhe: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isso, e sim o meu Pai que está nos céus. Também eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do Inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus.
Seguindo o que era prescrito no ritual de eleição do novo Papa, o Cardeal Giovanni Battista Re, decano da Capela Sistina naquele momento, aproximou de Jorge Bergoglio e fez-lhe as duas perguntas obrigatórias:
“Aceita a sua eleição canônica como Sumo Pontífice?”, que afirmativamente foi respondida.
“Com qual nome você quer ser chamado?” Inspirado pelas palavras de Dom Cláudio Hummes, e em homenagem a São Francisco de Assis, o Santo dos Pobres, escolheu e acolheu o nome Francisco. Nascia o Papa Francisco, o papa que veio “lá do fim do mundo…” e nunca mais pisaria em sua terra natal, a Argentina. E nascia, também, o seu grande legado. A frase “Não se esqueça dos pobres…” ficou em sua mente e em seu coração até o final de seu papado.
De início, cordialmente recusou os diversos paramentos papais e adotou apenas a veste branca, mantendo a sua cruz peitoral de arcebispo e os seus próprios sapatos, que eram ortopédicos. Pediu que Dom Cláudio Hummes e que Dom Agostino Vallini estivessem ao seu lado quando fosse apresentado ao mundo na varanda da Basílica de São Pedro após a declaração “HABEMUS PAPAM”.
Sua primeira viagem oficial foi ao Brasil, para a JMJ 2013 – Jornada Mundial da Juventude de 2013, na cidade do Rio de Janeiro.
Quando anunciou que viria ao Brasil, disse que era “para colocarmos mais água no feijão”, pois ele estava vindo. Enquanto cardeal, já havia visitado o nosso país, especificamente a cidade de Aparecida, em São Paulo, para 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Em sua chegada a terras brasilis como Papa, andou em um carro comum, com os vidros abertos, para desespero daqueles que fizeram a sua segurança; visitou comunidades carentes e o Hospital São Francisco de Assis, da Providência de Deus, na zona norte; e convidou os jovens católicos a serem revolucionários. Falou do acolhimento que recebeu dos brasileiros. Alegra-nos dizer que, na Missa de Envio, no encerramento da JMJ 2013, havia um público de 3,7 milhões de pessoas.
O Papa Francisco era um apaixonado por futebol e torcedor inveterado do Clube Atlético de San Lorenzo de Almagro, ou simplesmente San Lorenzo, também conhecido como Ciclón. Sempre que encontrava um brasileiro, questionava sobre quem era o melhor jogador: Pelé ou Maradona, demonstrando o seu bom humor e simpatia. Certa vez, ao ser questionado sobre a eterna rivalidade entre Brasil e Argentina, disse com alegria: “quanto à rivalidade, creio que já está totalmente superada. Porque negociamos bem. “O papa é argentino e Deus é brasileiro”.
Com a Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium” (A Alegria do Evangelho), o Papa Francisco convidou a todos a repensarem a Igreja, transformando-a em uma instituição mais acolhedora; em saída a fim de encontrar o povo de Deus, sendo mais missionária e a fim de anunciar o Evangelho com alegria. Fala sobre o clericalismo que ainda persiste na Igreja e propõe uma maior participação dos leigos, principalmente dos jovens, e convocou a cada um de nós, cristãos-católicos, a cuidarmos dos mais esquecidos, dos idosos, das minorias, dos povos indígenas, dos marginalizados, enfim, de todos aqueles que são fracos e que se sentem fracos diante esta sociedade muitas vezes opressora, cruel e violenta.
Somem a isso as outras declarações que causaram polêmicas e repercutiram mundo afora: a oposição da Igreja em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas um maior apoio e acolhimento para com alguns tipos de uniões civis, católicos divorciados, gays e lésbicas e para com as pessoas que estão vivendo em uma situação considerada irregular pela Igreja; as reformas legais para que a nulidade conjugal fosse concretizada; o perdão em relação ao pecado do aborto. E ainda a declaração de que a Igreja deveria pensar em ordenar mulheres para o Diaconato (uma reivindicação de décadas), a exigência de um pedido de desculpas da Igreja para com os gays e para com os outros que por ela foram ofendidos, marginalizados ou explorados.
Então, em 16 de julho de 2017, o Papa Francisco recebeu uma Carta formal elaborada por acadêmicos, teólogos e diversos membros do Clero que se opunham às suas declarações e avanços. Estes conservadores o acusaram de disseminar opiniões e posicionamentos contrários à fé e à doutrina católicas, especialmente em relação à Moral, ao Casamento e à Eucaristia.
Foi o primeiro papa a visitar o Iraque, que estava praticamente destruído pela guerra (esta visita foi a primeira viagem por ele realizada no pós-Covid). Visitou a Indonésia e países da Ásia. E era crítico ferrenho da situação de guerra e conflito que ainda vigora na Faixa de Gaza, entre Israel e Palestina. Crítico, também, das políticas de imigração na Europa e nos Estados Unidos.
E o Papa Francisco trouxe, definitivamente, a Ecologia como pauta para dentro da Igreja, exortando-nos a cuidarmos da nossa casa global. Em 2015, publicou a Encíclica “Laudato Si” (do latim, significa ‘Louvado seja’), que fala sobre os cuidados que devemos dispensar para com a natureza e o meio ambiente, e para com as outras pessoas. O nome da encíclica é uma clara referência ao Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis.
Enfim, o seu legado é de amor, paz, empatia e de humildade; de acolhimento, responsabilidade para com a Igreja e para com o próximo; de entrega aos desígnios de Deus, desprendimento e de amizade; de emoção, carisma, sinceridade e diplomacia; de respeito a outras religiões e a outras culturas. E agora, mais do que tudo, um legado de saudade pelo homem que agora se encontra na eternidade, e de orgulho por um homem que, em tão pouco tempo, ensinou-nos tanto.
Ao Cardeal Kevin Joseph Farrell, camerlengo (assistente pessoal e direto do Papa Francisco), coube a triste tarefa de anunciar o falecimento deste grande homem:
Anúncio do Camerlengo Farrell da Casa Santa Marta:
Queridos irmãos e irmãs, com profunda tristeza devo anunciar a morte de nosso Santo Padre Francisco. Às 7h35 desta manhã, o Bispo de Roma, Francisco, retornou à casa do Pai. Toda a sua vida foi dedicada ao serviço do Senhor e de Sua Igreja.
Ele nos ensinou a viver os valores do Evangelho com fidelidade, coragem e amor universal, especialmente em favor dos mais pobres e marginalizados.
Com imensa gratidão por seu exemplo como verdadeiro discípulo do Senhor Jesus, recomendamos a alma do Papa Francisco ao infinito amor misericordioso do Deus Trino.
Vatican News, 21 de abril de 2025
Catecismo da Igreja Católica
Canção Nova – Portal de Notícias – https://noticias.cancaonova.com
G1 – Portal de Notícias da Globo – https://g1.globo.com
Instituto Humanitas Unisinos – https://ihu.unisinos.br
Vida – Papa Francisco // Francisco, Papa “Vida: a minha história através da história” / Papa Francisco com Fabio Marchese Ragona ; tradução Milena Vargas – Rio de Janeiro : 1ª Publicação em 2024, Itália
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